sábado, 22 de dezembro de 2012


Encontros Consonantais



A felicidade é ortográfica...
Vai exigindo pontos, pausas e circunstâncias;
Já o bem é toda a gramática, ao mesmo tempo preciso e corredio;
Em tudo inspira tempos e modos verbais
(sempre é tão difícil achar as corretas conjugações!)
Com tantas interpretações, nunca foi tão fácil exceder...

Se soubesse exprimir toda a morfologia, roubando enigmas, mergulharia...
Com tanta certeza saberia eu mudar o destino das classificações ranzinzas;
Decerto nunca mais me faria acompanhar.
A quem falaria das novas possibilidades linguísticas?

Quisera eu saber a letra do tempo que ficou inscrita nas tábuas babilônicas!
Só assim me afogaria em um vazio sufocante do aprendizado (emergiria para contar sobre a escrita cuneiforme)
E como alguém que respira é que apresentaria um manual.
Falaria sobre a arte do bom sentimento, da loucura máxima da entrega...
E por ser um tema tão espinhoso é que insistiria na energia que se perde ao negar;
As paixões e os medos ficariam sob as suas rédeas como pupilos,
- o edifício gigante da alma sempre arruma um jeito de zombar-
Tema doce e malicioso forjador de pulsões: o amor.
Que outro sentimento passaria por esses dois pontos?

Origem das Espécies
                                       

Cada origem é uma explosão de possibilidades;
Nela surgem coisas e pessoas, a natureza em si mesma;
Os ciclos tomam uma dimensão controladora;
E os seres humanos dão mostra de que podem amar;
Adão e Eva, Lívia e Júlio? Tanto faz.

Evoluem assim as imperfeições.
Tomamos feições bárbaras e comumente abdicamos do sublime;
Máquinas, tecnologia e propriedades frias gelam as relações;
E nos transformamos em espectadores,
Passando a viver em permanente estado de sítio.

Retoma-se temporariamente o carinho, o abraço e o afeto;
O horizonte aponta para a civilidade;
Ledo engano, explodem as bombas existenciais de Hiroshima;
Por decreto fechamos as portas, janelas;
Trancados e sós, ficamos com nossas escrivaninhas;
Na rua, a vida deixando-se desperdiçar por entre os becos.

Desaprendemos a andar de mãos dadas;
Tudo é côncavo e convexo, multicêntrico;
Mas as fraquezas continuam unânimes.

Apesar disso tudo, e bem entendido;
Existe o nosso mundo, nossos afagos secretos e abundantes;
Eles remetem para dias mais floridos e promissores;
Unem nossas almas, sedimentam novas pessoas.

Tudo isso me faz pensar do lugar que surgimos;
Pensar que somos diferentes dos outros;
Não melhores, mas verdadeiros;
E se isso não bastar, visto que somos matéria;
Criaremos outra dimensão.

Afinal, não viemos mesmo da terra, talvez caímos de espaçonave;
Somos através das bondades dirigidas um para o outro;
E caso não parecer prudente nesses tempos;
Criaremos uma nova origem, um novo estado de natureza.

O Sinaleiro dos Medos


Na prisão consciente das almas vazias eu me via.
Era frio, e o tempo sombrio demais para recomeços.
Não queria cansar os olhos de quem me amava;
Pois quando bem se esconde a dor, a alma só espinha.

Se um guia nos aparece por acaso, rio inconsciente.
Tudo quanto é vão e importante se mistura em desejo,
E o que sinto é apenas resíduo de medo.
Aquela mesma escada em que fiquei ainda existe pra ti,
Nós acabamos...
Como dizer que quero algo que me contamina de gritos,
Onde gestos simples me acorrem com metáforas universais?
Queria te dizer tanto, mas me faltou espírito!
Preciso de intermediários pra que o meu carinho te alcance...
Por isso fiz esse poema, por isso não te quis quando me querias!

O Que Entendi dos Poetas


Eco das dores centenárias e dos sentidos escorregadios.
Musos da imperfeita centelha que não cessa.
Escorregar de mãos entre o indefinível;
Que ao ofício de Bilac nunca esmorecem os brios.
Decalque da vida são os poetas que muito amaram...

Há quem acredite em refluxo de sentimentos,
Mero espelho.
Os nossos olhos obsequiosos sempre precisam do perdão alheio.
(Ratificar o que de bonito disseram é reviver aureamente a falta!)

A mente de um poeta é igual à de um menino que tem preguiça,
Que de pensar em coisas sólidas demais para a fantasia, recria infâncias.
A razão das coisas é simples por ser sua,
- a paz nunca vem de baixo.
Natureza ranzinza, instinto benevolente.
A lógica humana universal degolada entre vidas particulares.
O poeta vai decompondo decadências pelo seu encanto.

Por isso, faço uma humilde defesa: não taxem os poetas!
Eles não são tão irrisórios ou incompreensíveis quanto apontam os filólogos.
-os livros aprisionam os gritos vertidos em suscetibilidades –
Se muitas vezes se fazem tão difíceis, meu caro, é porque são altruístas demais!
Não querem contaminar legiões sedentas de sentidos;
Vão com a altivez própria dos vanguardistas, carregando a sua própria solidão

A Quem Nada se Deve



Cadê a minha memória?
Será que foi embora contigo, meu benzinho?
Bebi-te matutinamente com o meu café,
E se muito li, foi porque estendestes os teus braços.
Se tudo correu bem foi porque deixamos a névoa dissipar segredos;
Eu te admirei só enquanto não te amei demais.

Aquele pássaro não cantava pra mim...
(ah, quando saíste aquela relva nunca mais serviu de abrigo!)
A solidão me fez, fui me tornando um lógico objeto.
- a minha mesa é tão grande para pequenas refeições-
O afeto não mais a ronda com suas franjas de espíritos.
E tenho de me contentar com vazios...
O que há de mais frio do que reviver sinceros momentos?

Minha amada caminhou na direção da sua humanidade,
Foi com poucos remorsos, alguns da gente, o resto dela.
Nada a constrangia mais do que fingir.
Sufocou-se com a sua escolha, e eu nada exigi.
Viajou num dia em que não li o horóscopo nem vi o tempo.
Penso que ela saiu numa manhã, pois queria me dizer algo
- a beleza do dia contrastava com minha tristeza, mas não me agredia-
Não compreendi o porquê, mas ela fez questão de deixar lembranças.
O lenço dela ainda está no cabide, o seu perfume ainda exala presença.
Sinto que a sua marca nunca acabará enquanto houver a mim...

Nada se deve quando tudo se deu, e embora se pense e se vá,
Tudo permanece o mesmo na fadiga e no sublime.
Ah, meu ex-eterno amor, não digas nada!
Ficarás aqui como um quadro para um homem que de tão jovem,
Morreu ardendo num sentimento tão senil quanto o próprio tempo.

Meandros de amor, Roteiros de Encontros e Despedidas

(Para Juliana Cintia)



Voa para buscar o tempo adormecido,
Tentando entregar o teu lugar a mim.
Depois da chuva eu sempre te encontro;
E mesmo ao permanecer pálido e tonto,
Sei reconhecer que a saudade, entristecida,
Pode ceder seu espaço para anunciar.

Solte os teus cabelos, suja o teu semblante!
Não espere que eu te acaricie com o agora,
Pois há muitos montes que obscurecem...
Eu quero que o viver seja um enlace,
Mesmo sabendo que a vida rasgue laços,
Sei que há amores que só crescem.

Vive junto à solidão como os dias sem vento,
Parando a cada ciclo vencido pelo cansaço.
No parapeito dos sentimentos saiba-se viva,
Sorvendo os rumores de saudade.
Que na beleza dos dias tu consigas morder a mesma maçã,
Amadurecendo como os cachos de uva...
Dê-me o alento, me puxe pelo braço!
Quem sabe também não acompanhe teu caminho.
Sei também compreender, transfigurar a criança sã.
Só não me deixa padecer sob as minhas amarguras.

Se me tiveres assim como a fórmula ao Alquimista,
Terás não só a mim, mas os meus anseios.
Serei muito mais que companheiro de dança,
Nesse louco desígnio que tanto acomete os amantes.
Me dá a proteção do zelo substantivo.
Concede também as preocupações dos destinos alheios,
Sabendo me contaminar com alegorias de esperança.

O que pedir a ti, se já tanto fazes?
Logo tu, que descobres os meus segredos a cada alvorada,
Propiciando sublimes ciências.
Não quero que apodreças junto!
Quero que vivas muito mais para compensar...
Sei que já pensastes muito ao meu lado, mas é hora de ir.
Sou quase aleijado para coisas que poderia até alcançar.
E tu ainda és vigorosa, rica de sentidos e essências.
És o bálsamo que anda a perfumar este defunto!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Choro*

No ônibus, o passageiro geralmente mata o tempo olhando para dentro de si através das janelas meio abertas: a gente fixa o olho naqueles postes, mulheres com vestidos amarelos, estabelecimentos comerciais com nomes idiotas. Coisas que só servem para evitar que os olhos não durmam. E com as pálpebras abertas, ficamos ali, num coletivo, tão isolados como nossos desconhecidos companheiros de viagem. Mas ontem vi um homem chorar assim, bem pertinho de mim, do meu lado!

Não era aquele choro de criança. Sabe aquele choro que Netinho dá quando Ane não o deixa tocar na bateria de brinquedo? É um choro bonito. Umas lagriminhas de desejo escorrem pelos olhos azuis do meleque. É um muxoxo.... uma boca aberta meio babenta, intercalados por pequenos gritinhos agudos. E lá, abandonado num canto da sala de estar, parece, que, para aquele guri de frauda da Turma da Mônica, a coisa mais importante do mundo é fazer zoada com as baquetas de plástico.

Não, o choro não era assim. Era um choro sisudo. Umas lágrimas formais brotavam daquele rosto de meia idade e, lentamente, cumpriam seu caminho de peso. E se não fossem umas respirações um pouco mais profundas, seria um choro completamente mudo como de uma santa de pau oco. Parecia que o mundo chorava o homem.

Senti-me estranho, com certo nojo daquele fraco que expunha sua miséria ali, coletivamente. Havia tantos banheiros com portas que podem ser fechadas, tantas escadas em que não se escuta passos, tantos cômodos de choro, que as lagrimas públicas daquele pobre-diabo me causavam ojeriza. Então, em um rompante de coragem, olhei em sua direção - Olhar meio desconfiado encontrando refúgio no ferro da cadeira da frente.

Em um instante o homem percebeu a minha curiosidade e deu soluçadinha de resposta. Eu Havia perdido a noção do tempo, o meu destino estava próximo. Não resistindo, em um último acesso de fúria, perguntei desesperadamente:

- O que é que o senhor tem?!

- Eu...

Não deu tempo de escutar suas lamúrias.


* (conto em parceria com Altiere Dias)